O Trem da Vida — Ebrael

Curioso é escutar algumas vozes supostamente iluminadas dizerem ao jovem de nosso tempo: “Torne-se no que você é”. Se tal silogismo não viesse a reboque da tsunami midiática que inunda nossas mentes, e que a todos busca conduzir como gado, ele seria de alguma valia, ao menos para um exercício de lógica. Porém, lógica é […]

via O Trem da Vida — Ebrael

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Doenças mentais: a importância dos primeiros mil dias de vida

 

A plasticidade neuronal humana é imensa nos primeiros anos de vida: em cada segundo, 700 a 1000 conexões novas entre neurônios são formadas nessa fase

Por Luis Augusto Rohde

access_time16 dez 2016, 14h32

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Bebê carismático

(Instagram)

Na cultura popular brasileira, um ditado afirma: “Pau que nasce torto nunca se endireita”. Na área de saúde mental, existe um interminável debate sobre quem tem o papel mais relevante na determinação das doenças, os genes ou o ambiente.

Pesquisas apresentadas no último Congresso Mundial de Psiquiatria Genética começam a delinear mais claramente potenciais alterações em genes que determinariam a vulnerabilidade para esquizofrenia, transtorno do humor bipolar, autismo, depressão e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. Esses estudos se valem de técnicas modernas de varredura genômica, uma espécie de análise detalhada de milhares de marcadores ao longo do DNA. A novidade é que essas abordagens estão sendo aplicadas a grupos de milhares de indivíduos afetados por uma doença e grupos de milhares de indivíduos sem a doença em questão. Será que a ciência está comprovando a sabedoria popular?

Felizmente, parece que ainda não! A plasticidade neuronal humana é imensa, principalmente nos primeiros anos de vida. Estima-se que, a cada segundo, 700 a 1000 conexões novas entre neurônios sejam formadas nesse período. Mas até aí se poderia pensar que as conexões se estabeleceriam apenas pela maestria dos genes de cada indivíduo. No entanto, pesquisas têm nos mostrado que, na verdade, o funcionamento dos genes é ativado ou desativado pelas experiências ambientais que vivemos na primeira infância.

Um fenômeno com nome complicado: epigenética. Rotas e conexões entre neurônios que são produzidas e mantidas por estímulos são fortalecidas e as outras desaparecem. Um estudo clássico é extremamente ilustrativo desse fenômeno. Filhos de ratas que exibem um cuidado materno mais adequado com eles no início da vida, quando atingem a idade adulta, ativam mais genes que determinam a expressão de receptores cerebrais que regulam resposta ao stress. Resultado: essa prole tem melhor resposta a situações de vida estressante! Qual a importância disso? Dados de inúmeros estudos demonstram que o efeito do stress crônico nos primeiros anos de vida na forma de pobreza extrema, maus-tratos, violência doméstica, depressão materna e abuso de sustâncias pelos pais, sem o efeito de tamponamento de ações adequadas e afeto dos cuidadores, é decisivo na alteração de mecanismos biológicos que se entranham no cérebro e aumentam risco para doenças crônicas. Estamos falando não só de problemas de saúde mental como depressão e adições, mas também de doenças clínicas como diabetes e problemas cardiovasculares.)

O que importa aqui é que, se a ação não for rápida, a possibilidade de reversão desses desfechos negativos vai se reduzindo de forma acelerada. Entre os inúmeros programas de prevenção existentes, vale mencionar uma iniciativa desenvolvida na Jamaica e que buscou aprimorar e fortalecer a interação mãe-bebê através de interações que estimulavam o desenvolvimento cognitivo, social e emocional em crianças desnutridas com até 16 meses de vida. Consistia em visitas semanais realizadas durante dois anos por agentes comunitários que demonstravam por meio de brinquedos artesanais inúmeras atividades e potenciais interações entre a mãe e a criança. Aos 22 anos de idade, aquelas crianças que receberam a estimulação tinham maior escolaridade e remuneração média de trabalho em tempo integral 25% maior do que as crianças do grupo controle. Ainda, o grupo que recebeu a intervenção apresentou maior QI, mais conhecimentos de matemática e leitura, maior grau de escolaridade e menos sintomas de depressão e inibição social do que o grupo controle. Por fim, esse grupo mostrou probabilidade menor de desenvolver comportamento antissocial e praticar crimes.

Resultados iniciais com programas similares em solo brasileiro, capitaneados pelos professores Guilherme Polanczyk e Anna Chiesa, da USP, são bastante promissores e avançam na compreensão de um elemento ainda faltante nessa equação, o mecanismo biológico no cérebro pelo qual essas intervenções funcionam.
Não é por acaso que o professor Heckman, prêmio Nobel de Economia em 2000, tem se dedicado a demonstrar que os benefícios gerados por programas de intervenção precoce são maiores e mais duradouros que os implementados mais tarde, e que, por sua vez, aumentam muito mais as taxas de retorno em capital humano. Em suas palavras, para cada dólar investido na primeira infância temos um retorno de 8 dólares para a sociedade geral.
Mas para aqueles que não se convencem apenas com dados científicos, afinal humanos são diferentes de ratos, vale assistir ao filme O Começo da Vida” (http://ocomecodavida.com.br/). Não há melhor maneira de conectar as sinapses da emoção com dados científicos!

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especialista em economia comportamental Dan Ariely discute como os brasileiros podem lidar com a crise, a corrupção e a baixa autoestima

| por Adriana Salles Gomes

Sinopse: Vale a leitura porque…. os gestores brasileiros precisam melhorar sua reação à crise político-econômica que o País vive, convertendo respostas emocionais em racionais… estudos de economia comportamental têm feito importantes descobertas sobre a natureza dos seres humanos e sobre como o uso das técnicas certas pode promover melhorias significativas em suas ações e reações… conhecimentos simples como o dos três tipos de decisão que as pessoas tomam e o dos experimentos já conseguem impactar o comportamento individual.

A crise político-econômica que o Brasil vive tem deixado empresas paralisadas. É uma reação racional diante das incertezas e dos dados de consumidores acuados? Não totalmente, se lembrarmos o que a história ensina: esses momentos, cíclicos, são repletos de oportunidades. Para que respondam menos irracionalmente ao contexto, o especialista em economia comportamental Dan Ariely, da Duke University, sugere que os gestores brasileiros façam experimentos sobre o que dá certo e o que não funciona. Nesta entrevista exclusiva, ele também aborda comportamentos para enfrentar a corrupção e a baixa autoestima.

Diante de seus muitos anos de estudos sobre comportamentos irracionais, eu lhe pergunto: haveria uma forma mais racional de os brasileiros responderem à atual crise político-econômica?

Sim, controlando o medo. Em geral, o medo não resulta em tomada de decisões racionais. Eu, por ser israelense, penso muito no terrorismo quando penso em medo. O terrorismo causa mortes, é muito triste, mas as reações a ele são descabidas. Quantas pessoas morrem por dia no trânsito de São Paulo? Quantas morrem por violência urbana? Certamente são mais do que as vítimas de terrorismo.

A diferença é que, quando dirigimos, não temos medo, nos sentimos no controle; se trancamos o carro, não temos medo, nos sentimos no controle. Já no terrorismo, ou na crise econômica, a imprevisibilidade nos faz sentir medo e agimos, então, de maneira irracional.

Você se mudou para os EUA como resposta mais ou menos racional ao terrorismo?

Não, eu me mudei por outras razões. O terrorismo é muito amedrontador, mas eu me lembro de que suas probabilidades são baixas e é mais seguro [viver em um ambiente sob ameaça terrorista do que] dirigir no trânsito caótico de uma grande cidade.

É realmente possível dominar esse medo irracional?

É possível, mas precisamos de ajuda para conseguir isso. Temos de fazer pequenos experimentos, testando se algo pode dar certo apesar do medo.

E não é só o medo. O excesso de confiança leva à irracionalidade tanto quanto o medo. Quando as pessoas têm certeza de que estão no caminho certo e ficam excessivamente confiantes – por exemplo, na maneira de lidar com a crise –, também podem agir irracionalmente.

Imagine que você administra uma empresa e acredita que o caminho certo a seguir é o A. Ache uma forma de comparar os caminhos A e B, para ter certeza de que está no caminho certo – não economize com o experimento.

Você faz experimentos. Na prática, isso o levou a mudar o comportamento?

Sim, em muitas questões. Claro que é impossível eu estar consciente de mim mesmo o tempo todo – por exemplo, toda vez que tomo uma xícara de café ou que como alguma coisa. Mas é possível ter essa consciência durante grandes decisões e também dá para avaliarmos nossos hábitos. Eu diria que durante a crise – e mesmo depois de ela terminar – vocês primeiro devem separar as decisões em três tipos: pequenas decisões, grandes decisões e decisões repetidas, habituais.

É bem difícil tentar dar mais racionalidade às pequenas decisões, não insistam muito nisso. Mas, por meio do conhecimento – incluindo os vindos de seus experimentos –, vocês conseguirão lidar mais racionalmente com as grandes decisões e com as decisões habituais. É isso que eu tento fazer, pelo menos.

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Os indivíduos nas empresas são menos irracionais do que em sua vida pessoal?

São iguais. Nós fazemos pesquisas em algumas empresas, principalmente no Google, e volta e meia tenho algumas surpresas com seus funcionários. Isso acontece porque as pressões políticas dentro das empresas geralmente são bem impressionantes. As pessoas relutam em expressar suas opiniões, inclusive.

Comparando o comportamento individual com o corporativo, há diferenças que têm a ver principalmente com os tipos de pressão e com os tipos de motivação que as pessoas têm. Em nossas vidas privadas, nós não temos tantas pressões políticas, mas em uma empresa as pessoas pensam nisso.

Isso significa que as pessoas têm mais medo nas empresas?

Em parte, elas têm medo. Em parte, querem estar em conformidade. E, em parte, não desejam causar má impressão e ficam justificando suas decisões para os outros. Seja como for, é ruim para os negócios.

Qual o antídoto?

Descobrimos que uma das coisas mais valiosas sobre o comportamento na economia é a modéstia. É importante ser modesto porque, agindo assim, você percebe que pode estar errado, e com isso aumenta a possibilidade de fazer os experimentos e “intuir”.

A modéstia nos leva a experimentar as coisas, receber feedback imediato, aprender. Sua intuição se constrói racionalmente, com experimentos.

Como se aprende a experimentar?

Acredito que as ciências sociais e a economia comportamental ensinem bastante sobre a abordagem experimental, uma vez que elas ensinam que precisamos não ser tão seguros de nós mesmos, que podemos e devemos fazer experimentos. 

Isso é o oposto do mundo das empresas, não é?

Sim. Nas empresas, se você acredita em algo, quer sair realizando. Mas não é só no mundo dos negócios; é na humanidade como um todo. Precisamos obrigar as pessoas – e nos obrigarmos – a fazer experimentos, porque vai contra nossa natureza testar coisas em um nível intenso.

Temos de nos inspirar na medicina. Quantas más ideias a medicina já teve? Muitas. Então, nós obrigamos o setor de saúde a realizar experimentos. Se não exigíssemos isso, os profissionais da medicina fariam experimentos? É claro que não. Eles os fazem porque são forçados a tanto. E aí descobrem que muitas boas ideias não têm benefício algum – e que muitas ruins têm.

Quero entrar em sua linha de estudo atual, que é como as pessoas lidam com o dinheiro e a corrupção. Os brasileiros acham que corrupção é uma característica de nossa cultura nacional. É?

Ainda não fiz experimentos no Brasil, mas não creio. Vocês têm muita corrupção, sim, porém ela não é a espinha dorsal da sociedade a ponto de ninguém poder confiar em ninguém. Se selamos um acordo com um aperto de mão, isso vai valer tanto quanto em outros países. E, se eu deixar minha carteira cair no chão aqui, a probabilidade de que eu a recupere é a mesma da maioria dos outros lugares do mundo. Esse seria um experimento a fazer, inclusive.

A humanidade toda é muito semelhante. Quanto mais básica a decisão em questão, mais semelhantes são nossos comportamentos. Só poucas regiões específicas têm diferenças culturais significativas. No caso da corrupção, eu diria que os sul-africanos não se importam em subornar um policial, os quenianos acham tudo bem corromper uma autoridade municipal e os chineses, ao que parece, aceitam que os filhos colem em provas da escola. Mas não vejo que seja assim no Brasil. 

Qual é o problema no Brasil?

O que me vem à mente são os conflitos de interesses, que são muito corrosivos. Imagine um político que tem um grande amigo no setor de construção –amigo de verdade, com o qual ele se importa e cuja perspectiva de mundo ele compartilha. Se o político representa o governo, isso não é nada bom, certo? 

Na verdade, nem nos damos conta disso, mas os conflitos de interesses, que confundem amizade e assuntos profissionais, afetam todos nós, o tempo todo, no mundo inteiro.

Os conflitos de interesses dão vez a todos os tipos de benefícios e também a todos os tipos de perigo. Quando subestimamos os perigos, só vemos os benefícios – precisamos ficar atentos aos perigos, usar o conhecimento contra a irracionalidade. Ainda bem que vocês têm um sistema judiciário bom, que pode fazer isso.

Você se refere ao Ministério Público, aos promotores…

O pouco que eu sei é bem impressionante. Vocês treinam os jovens por anos, não é ninguém eleito. É muito esforço, estrutura, sacrifício. Vocês não podem subestimar isso no Brasil.

Além de ficar atento aos perigos nos conflitos de interesses, há outro comportamento que contribua para a correção ou para a prevenção à corrupção?

Não há o que conserte a corrupção, porque, quando se tem corrupção, não se tem mais moral; esta já foi perdida. 

Corrupção é dizer que você não se importa, enquanto a moral nos lembra de quem queremos ser. Se a pessoa que alguém quer ser é corrupta, tarde demais.

Agora, devo dizer que temos uma capacidade ética imensa. Poderíamos sempre levar as colheres do restaurante para casa sem que ninguém nos visse, mas nós não fazemos isso – de tempos em tempos, alguém até pode fazer, mas não faz sempre.

O desafio é ampliar essa capacidade ética, certo? Precisamos pensar em duas coisas: na educação e em como ajudar as pessoas a lidar com os momentos de tentação, fazendo com que percebam quem elas querem ser.

Isso poderia ser estruturado?

Com certeza. Os membros de uma sociedade sempre pensam muito no que é “apropriado” fazer e se comportam conforme a maioria das pessoas ali julga apropriado. Também tenho estudado como a tecnologia da informação pode ajudar as pessoas a tomar decisões mais racionais em geral, e talvez pudesse ser criado algum tipo de recurso nesse sentido.  

O grande risco que o Brasil corre com o escândalo de corrupção atual é as pessoas pensarem que, por estarem em um país corrupto, devem tirar proveito disso: “Por que eu seria o único idiota que não se beneficiaria?”.

A principal descoberta de meus experimentos sobre corrupção é que a existência de um sistema corrupto faz com que as pessoas rapidamente deixem de ser honestas, o que é muito triste.

O que nos ajudaria a lidar com essa ameaça imediata?

Nós, judeus, temos um dia por ano para confessar. As pessoas pedem perdão pelos dez dias anteriores, por todos que ofenderam etc. É um processo muito purificante. Acho que o Brasil precisa de algo assim. E todos têm de se confessar ao mesmo tempo. 

As pessoas precisariam ouvir da presidente afastada que ela mentiu em suas promessas na campanha eleitoral?

Sim, e não só da presidente afastada. Acho que todos os envolvidos, incluindo as empresas que corromperam as autoridades, deveriam admitir o que fizeram, pedir perdão e prometer não mais cometer o erro, abrindo uma nova página.

Em maio último, pelo menos uma empresa fez um pedido de desculpas público, a construtora Andrade Gutierrez.

É fácil fazer isso – e necessário. Para a sociedade progredir, precisamos admitir nossa culpa, pedir perdão e passar por etapas que nos mostrem como a vida poderia ser diferente.

O problema é que poucos querem fazer isso, apesar de ser importante para a sociedade.

Um exemplo da importância é a Comissão da Verdade e Reconciliação, na África do Sul. Crimes horríveis foram cometidos contra os africanos e quem os cometeu basicamente chamou a responsabilidade para si e admitiu seus pecados, sua brutalidade, sua violência. E pediu perdão. Isso não apaga o passado, mas nos permite deixá-lo para trás e, enfim, progredir. 

No Brasil, nunca houve pedido de desculpas, das pessoas da ditadura militar, por perseguições, torturas e desaparecimentos. Isso pode ser empecilho ao progresso?

As pessoas admitiram o que fizeram ou apenas ganharam anistia? Poderiam ganhar anistia contanto que admitissem o que fizeram. A anistia é interessante, mas é apenas um pedaço, insuficiente. Esse é um problema de toda sociedade, não só do Brasil: ninguém quer admitir culpa. Os políticos não o querem, por exemplo, porque pensam no curto prazo, na reeleição.

“várias inovações da história são promovidas por golpistas; os pontos obscuros da sociedade muitas vezes abrem caminhos”

O curto prazo também é um problema nas empresas?

Sem dúvida! Com as organizações é pior ainda, porque elas têm de prestar contas sobre lucros trimestrais. Imagine que você é o CEO de uma empresa e diz que vai “perder” dinheiro por cinco anos para fazer a coisa certa… Quase impossível! 

Quem fez isso muito bem foi Jeff Bezos. A Amazon, uma das maiores empresas do mundo, ficou por muito tempo sem dar dinheiro. Bezoscomprava os livros das editoras por US$ 2 e os vendia por US$ 0,99, que acreditava ser o preço justo, para criar a plataforma eletrônica Kindle. Mas ele era acionista majoritário, além de corajoso e paciente, com visão de longo prazo.

As startups têm discurso pró-longo prazo e também se valem de experimentação para inovar. Elas podem mudar o mundo empresarial?

Não vejo as startups sendo pacientes, ainda que eu goste delas por muitas razões. Eu mesmo montei uma, a Timeful, que faz um software para ajudar as pessoas a administrar o tempo mais racionalmente. Eu a vendi, antes de dar lucro, para o Google.

Parabéns! E o que dizer sobre o princípio de transgredir as regras estabelecidas, associado às startups e ao Brasil?

Um historiador já escreveu que várias inovações da história são promovidas por golpistas. Os pontos obscuros da sociedade muitas vezes abrem caminhos.

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O principal desafio da sociedade, por Dan Ariely

A democracia em ciclos curtos cria problemas terríveis em países como os Estados Unidos e o Brasil. Nos Estados Unidos, elegemos políticos a cada dois anos e, por causa disso, eles nunca conseguem pensar em longo prazo. Na China, diferentemente, o líder fica no poder por dez anos, tendo tempo de realizar coisas penosas que podem ser úteis para o futuro.

As pessoas nunca querem que os políticos eleitos dificultem sua vida. Elas não pensam: “Por que você não dificulta nossa vida pelos próximos cinco anos para que, em dez anos, as coisas melhorem?”. Apesar de isso ser importante, elas não o querem.

Agora, pense: se os pais dissessem ao filho “Você acha chato aprender a ler, mas confie em nós; isso será útil a você no longo prazo”, a criança de 6 anos concordaria com isso? Não creio. Poucas crianças aprenderiam a ler se não fossem obrigadas. O motivo? As crianças não veem o esforço de longo prazo como algo agradável.

Ocorre que o esforço de longo prazo também não é agradável para os adultos. Problemas como o aquecimento global, o déficit de educação e de infraestrutura ou a desigualdade social exigem um aumento de impostos chato para serem resolvidos nos próximos 40 anos, mas ninguém optará por investir em infraestrutura em longo prazo espontaneamente.

Eu acredito que os políticos precisariam ter a coragem de obrigar as pessoas a aceitar esses esforços de longo prazo, tanto quanto os pais obrigam os filhos a aprender a ler.

Eles as obrigam? Não, e a culpa de isso não acontecer não é só dos políticos; é sobretudo da democracia de ciclo eleitoral curto. Nela, quem desagradar ao eleitorado não se reelege.

Saiba mais sobre Dan Ariely

Quem é: Professor e pesquisador de psicologia e economia comportamental norte-americano de origem israelense.

Carreira: Professor da Duke University e cofundador da consultoria empresarial BEworks, com Nina Mazar, criou, em 2010, a startup Timeful, para ampliar a produtividade humana, que vendeu ao Google em 2015.

Livros: Previsivelmente Irracional, The Upside of Irrationality e The Honest Truth about Dishonesty. 

Linha de estudo atual: Como as pessoas tomam decisões de dinheiro e saúde e como a tecnologia pode ajudá-las a tomar decisões melhores.

Feminismo

 

“O feminismo não está de maneira nenhuma relacionado com a igualdade entre os géneros, e nem está relacionado com os direitos das mulheres.
Acima de tudo, o feminismo centra-se nos diversos grupos que buscam formas de obter poder e dinheiro, para além de buscar formar de construir impérios auto-satisfatórios sobre os quais milhões de pessoas – literalmente milhões de pessoas – têm um interesse muito forte – um interesse que é, na verdade, muito destrutivo para as sociedades onde estas pessoas operam.

Para se ver como opera o seu jogo, apenas quero que vocês imaginem uma sociedade – uma sociedade idealizada – onde as mulheres se encontram felizes em passar os seus dias intimamente associadas às suas casas e aos seus filhos, e os jovens homens e os pais se encontram razoavelmente felizes em caminhar para os seus locais de trabalho – quaisquer que eles sejam.

Para além disso, quero que imaginem que a maior parte das pessoas desta sociedade encontram-se razoavelmente felizes com esta situação. Dito de outra forma, este é um lugar razoavelmente feliz.

Agora, a pergunta que eu quero que vocês contemplem profundamente é: O que é que o governo ganha com isto? Como é que o governo e os funcionários governamentais podem obter algum dividendo existindo dentro duma sociedade composta por pessoas que parecem estar felizes e em paz umas com as outras?

Como é que o governo pode dizer às pessoas “Vocês precisam de mais intervenção governamental. Deêm-nos mais dinheiro através dos impostos”?

Claramente, nesta sociedade idílica seria de facto muito difícil persuadir as pessoas a disponibilizar mais dos seus recursos – adquiridos através do seu trabalho – como forma de financiar “mais governo”.

No entanto, se esta sociedade razoavelmente feliz fosse perturbada por alguma força – uma força que induz a desarmonia junto da população, por exemplo, que aumentasse a criminalidade – então seria muito mais fácil para o governo extrair uma parte maior do bolo da sociedade.

Por exemplo, se há um aumento da criminalidade, é mais provável que as pessoas aceitem o financiamento duma força policial mais robusta.

Se por acaso os homens e as mulheres começarem a guerrear uns contra os outros, e se começarem a separar uns dos outros através do divórcio, então o governo pode justificar a extracção de mais recursos das pessoas como forma de criar uma força laboral de serviços sociais maior como forma de olhar pelas mulheres e pelas crianças que estão, agora, entregues a si mesmas.

O ponto que quero frisar é o seguinte: o governo não ganha nada quando as pessoas estão em paz umas com as outras, mas sim quando elas estão, de alguma forma, em guerra umas com as outras.

Claro que o governo pode beneficiar também com muitas outras coisas, mas o ponto aqui é o seguinte: é mais do que claro que os governos beneficiam com o que daqui para a frente vou dar o nome de “desarmonia” – desarmonia social; tal como o crime.”

– Por Angry Harry


O TERROR BEM PERTO DE NÓS

 

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Um grupo terrorista formado por fanáticos cujas ideias pare-

cem ter sido trazidas do passado em máquinas do tempo cho

cou o mundo por manter mulheres sob um regime de escravi-

dão sexual. Estado Islâmico? Boko Haram? Sim, a afirmação

acima descreve parte dos horrores cometidos por esses dois

grupos, que controlam vastas áreas da Síria e do Iraque e apa-

voram a população do norte da Nigéria. As mulheres e as meni

nas da foto, amparadas por integrantes das Forças Armadas do

Peru, porém, eram submetidas a suplícios equivalentes aos das

yazidis iraquianas e das estudantes nigerianas a apenas 250

quilômetros da fronteira com o Brasil. O Sendero Luminoso,

uma organização narcoguerrilheira, sequestrou as mulheres

nos anos 80 e as mantinha como escravas sexuais, além de

obrigá-las aos serviços braçais necessários para a manutenção

de seus esconderijos na Floresta Amazônica. Em julho, treze

delas foram resgatadas pelos militares — junto com 26 crian-

ças, todas nascidas no cativeiro e destinadas a se tornar terro-

ristas. O Sendero surgiu com o propósito de instalar uma dita-

dura comunista no Peru e hoje está reduzido a algumas células

que sobrevivem do tráfico de cocaína e da extorsão de campo-

neses. Uma aberração histórica com pretensões tão surreais

quanto as do Estado Islâmico e do Boko Haram.

A ORIGEM DE (QUASE) TUDOInserir o título da postagem

 

MEnina ferida

 

A ORIGEM DE

(QUASE) TUDO

No princípio era a Síria — e sua guerra interna. Depois vieram

os fanáticos do autointitulado Califado (ou Estado Islâmico),

que assumiram o controle de um bom pedaço do país e também

do vizinho Iraque, instituíram a tortura e a execução em praça

pública como punição a qualquer prática que consideram crime,

incluindo homossexualidade e adultério, e aos poucos exporta-

ram seu reino do terror, organizando atentados contra civis in-

defesos no Egito, no Líbano e na França. O avanço da seita apo-

calíptica islâmica somou-se aos motivos que fazem a população

síria cruzar as fronteiras para o Líbano, o Iraque, a Jordânia e a

Turquia, e de lá para a Europa, mas o principal deles continua

sendo a campanha aérea do ditador Bashar Assad, cujos heli-

cópteros despejam, sobre áreas urbanas, bombas artesanais fei-

tas com tonéis cheios de parafusos, fragmentos de metal, dina-

mite e gasolina. A menina da foto, da cidade de Douma, na peri-

feria da capital, Damasco, foi ferida por uma delas, em agosto.

Cerca de 250000 pessoas foram mortas e metade da população

de 22 milhões fugiu de casa desde o início da guerra, em 2011.

Se esses números e o olhar desta criança não são suficientes pa-

ra que os líderes mundiais assumam como prioridade em 2016

dar um fim ao conflito, quem sabe seus efeitos diretos sobre o

Ocidente — os atentados terroristas, a crise de refugiados —

cumpram esse papel?

Desmanche de uma nação

ESTE FOI O ANO em que o Brasil

Velho teve finalmente um duelo pa-

ra valer com o século XXI. Todos

estão cansados de saber que país é

este. E o Brasil que desde a sua in-

dependência, 200 anos atrás, está

aí para proteger, servir e enriquecer

a minoria dos que dão ordens nos

governos, os seus amigos e os que

pagam para estar de bem com os

que mandam.

blog16-e1419073264290

É o Brasil da corrup-

ção como método de governo e ob-

jetivo da vida pública — um condo-

mínio gerido por gangues políticas

cujo único propósito é controlar a

máquina do Estado. Não há ideias

nesse Brasil; só há interesses. O pri-

meiro mandamento do político

“competente”, ou “do ramo”, é apli-

car as melhores técnicas para enga-

nar um eleitorado em grande parte

ignorante, pobre, indiferente a seus

direitos e desinteressado de ques-

tões públicas.

Aqui, os donos dasCorrupção-do-PT-01

decisões tratam como um absurdo

o princípio pelo qual a lei deve ser

igual para todos. Estão convencidos

de que o fato de ganhar eleições, em

geral através da prática de estelio-

nato aberto em suas campanhas

milionárias, lhes dá o direito de fa-

zer o que bem entendem com o apa-

relho da administração pública.a1 O

Brasil Velho, em suma, é o Brasil

em guerra permanente com o pro-

gresso, a mudança e o bem-estar.

Porte de drogas e a Constituição: o STF como superego de uma sociedade órfã de valores comuns

uma nítida contradição querer-se liberar o porte e ao mesmo tempo proibir o tráfico; em outros termos, proíbe-se a venda, mas permite-se a compra.

O Brasil, a rigor, não é uma nação. Exceto pela língua e por alguns costumes compartilhados, não há nada que torne identificável o tipo-ideal do “brasileiro”. Nós temos uma sociedade caoticamente formada por diversos subgrupos e por uma vasta legião de pessoas que não consegue ter uma mínima noção de hierarquia de valores. Os intelectuais mais bacanas diriam a esse respeito “é assim que tem que ser, pois o nosso ideal de sociedade é pluralista!”.

Tudo bem, as diferenças devem ser respeitadas. Isso, inclusive, é a base da democracia. Porém, temos um problema conceitual: uma sociedade absolutamente pluralista não chega a ser uma sociedade pois não há princípios morais fundamentais que façam as pessoas se associarem em vista do bem comum. Aliás, bem comum é um conceito que nem faz sentido sem uma compreensão amplamente compartilhada a respeito do que é o bem.

Mais grave ainda: os problemas e dilemas morais continuam a aparecer e em uma velocidade cada vez maior. Esses problemas devem ser resolvidos de alguma forma mais cedo ou mais tarde. Contudo, essa solução não pode partir da sociedade brasileira que, como visto, talvez nem exista como tal, mas da grande entidade que nos unifica, o Estado. E, dentro do Estado brasileiro, o grande órgão emanador de normas morais é o Supremo Tribunal Federal (STF).

Não vou entrar aqui na espinhosa questão se o superego realmente existe ou se é apenas uma construção. Quero, porém, aproveitá-lo como uma metáfora da nossa situação atual. Nesse sentido, toda sociedade precisa de um superego, ou seja, uma instância que decida as grandes questões morais. Em uma sociedade minimamente coesa, a função do superego é exercida pela cultura comum. No Brasil, o STF já se tornou há tempos o nosso superego.

Um exemplo claríssimo dessa função de “resolução das grandes questões morais do país” é o atual julgamento pelo STF da constitucionalidade do porte de drogas. Ora, a Constituição Federal (CF) nem ao menos se refere ao porte de drogas; não é, portanto, uma questão expressamente constitucional. Pior ainda: a própria CF determina, em cláusula pétrea, que o crime de tráfico de drogas é equiparado a hediondo, ou seja, que está na categoria dos crimes mais graves do sistema jurídico. É uma nítida contradição querer-se liberar o porte e ao mesmo tempo proibir o tráfico; em outros termos, proíbe-se a venda, mas permite-se a compra. Não é preciso ser um jurista para perceber que há algo de absurdo nessa equação.

Isso não impediu que o relator do processo proferisse voto declarando a inconstitucionalidade do porte de drogas. E como ele fez isso? Utilizando um “procedimento mágico” bastante comum hoje na jurisprudência: a resolução de “conflitos” entre direitos constitucionais. Assim, ele disse que há conflito entre o direito à intimidade e ao “livre desenvolvimento da personalidade” com o direito à saúde e à segurança pública; para resolver esse “conflito”, ele escolheu os direitos que mais lhe agrada e acabou por criar um “direito ao entorpecimento, mas não irrestrito” (isso é sério).

Comentando na imprensa esse voto, outro ministro do STF disse que o julgamento não deve ser unânime porque a questão é moralmente controvertida. E você pensando aí que a função do STF é fazer juízos de constitucionalidade e não de moralidade…

Enfim, pense em qualquer questão moral controversa, qualquer uma. Se um caso referente a essa questão chegar até o STF, o tribunal dirá que esta é constitucional, mesmo que a CF não tenha tratado disso em nenhum dispositivo. E assim apenas onze pessoas, de perfil ideológico bastante semelhante, tem determinado as concepções de certo e de errado de todo o povo brasileiro.

Sete de Setembro à moda neopetista


Convenceram-se, nossos governantes, de que o país enriquecera e de que para acabar com a pobreza bastava, então, distribuir dinheiro aos pobres. Ora, nem o mais piedoso pároco acredita nisso.

A CNBB está mais fechada com o governo do que o próprio governo.

As cenas que vi, com cercas e tapumes metálicos, faziam lembrar um campo de concentração, onde as autoridades se protegiam no lado de dentro e a população era mantida no lado de fora. Foi um Dia da Pátria em estilo neopetista. Com efeito, durante décadas, o Partido dos Trabalhadores vendeu-se como um partido popular e diferente dos tradicionais. Pé no barro e cheiro de povo.Você lembra? Pois é, acabou.

Não preciso descrever, aqui, a vertiginosa ascensão social das lideranças do partido. Quanto mais habilmente escalavam o pau de sebo da prosperidade, mais tênue se tornava a relação do partido com a sociedade. E à medida que se faziam conhecidas as escabrosas formas de subvenção dos interesses partidários e pessoais do grupo governante e seus associados, firmou-se a convicção de que o PT era um partido diferente. Diferente demais.

Se formos pesquisar além dos equívocos ideológicos, dos usos e abusos do populismo e do patrimonialismo, das más companhias; se deixarmos de lado o péssimo recrutamento dos próprios quadros entre setores corrompidos do sindicalismo; se esquecermos o deslavado aparelhamento das instituições de Estado e da administração pública, veremos um partido que se afogou em banheira de champanhe. Sim, o borbulhante PT dos anos dourados, até a segunda metade do governo Lula, acreditou que as vacas seriam sempre gordas, os ventos favoráveis e o povo sempre parvo. Creu, o partido do senhor Lula, que a China cresceria eternamente, que o petróleo jamais perderia preço, que a política era um grande negócio. E vice-versa. Convenceram-se, nossos governantes, de que o país enriquecera e de que para acabar com a pobreza bastava, então, distribuir dinheiro aos pobres. Ora, nem o mais piedoso pároco acredita nisso. Após 13 anos de governo, o PT nada fez do que prometera. Encheu a banheira de champanhe e afundou na miserável abundância dos anos de esbanjamento.

Surgiu, assim, a governança em estilo neopetista. É uma governança que se esconde, que não sai às ruas. Lula importou ao custo de R$ 28 bilhões o brinquedinho da Copa de 2014. E não compareceu a um único jogo porque não quis se expor ao que aconteceu com Dilma. É uma governança que cumpre a solenidade do Sete de Setembro por dever de ofício, de cara amarrada, que se oculta do povo, dos fatos, das notícias. O estilo neopetista não dá entrevista, não fala à nação, se reúne nos porões e confabula. Dá a vida por um grande acordo que o sustente. É uma governança que, embora se esconda, cedo ou tarde acaba encontrada pelos oficiais de justiça.

Espírito e cultura: o Brasil ante o sentido da vida

Primeira Meditação de Ano Novo

 

Por vezes, do fundo obscuro da alma humana, soterrada de paixões e terrores, nasce um impulso de libertar-se da densa confusão dos tempos e erguer-se até um ponto onde seja possível enxergar, por cima do caos e das tormentas, dos prazeres e das dores, um pouco da harmonia cósmica ou mesmo, para além dela, um fragmento de luz da secreta ordem trancendente que — talvez — governa todas as coisas.

É o impulso mais alto e mais nobre da alma humana. É dele que nascem todas as descobertas da sabedoria e das ciências, a possibilidade mesma da vida organizada em sociedade, a ordem, as leis, a religião, a moralidade, e mesmo, por refração, as criações da arte e da técnica que tornam a existência terrestre menos sofrida.

Nenhum outro desejo humano, por mais legítimo, pode disputar-lhe a primazia, pois é dele que todos adquirem a quota de nobreza que possam ter, residindo mesmo aí o critério último da diferença entre o humano e o sub-humano (ou anti-humano) e, por conseguinte, para além de toda controvérsia vã, a chave da distinção entre o bem e o mal. É bom o que nos eleva à consciência da ordem e do sentido supremos, é mau o que dela nos afasta. Não tem outro significado o Primeiro Mandamento: Ama a Deus sobre todas as coisas.

Acontece que a esse impulso fundamental corresponde um outro, derivado mas não menos forte: aquele que leva o homem que entreviu a ordem e o sentido a desejar repartir com os outros homens um pouco daquilo que viu. Não há certamente maior benefício que se possa fazer a um semelhante: mostrar-lhe o caminho do espírito e da liberdade, pelo qual ele pode se elevar a uma condição que, dizia o salmista, é apenas um pouco inferior à dos anjos. Tal é, substancialmente, a forma concreta do amor ao próximo: dar ao outro o melhor e o mais alto do que um homem obteve para si mesmo. Amamos o nosso próximo na medida em que o elevamos à altura dos anjos. Fazemos-lhe o mal quando o rebaixamos à condição de bichinho, seja com maus tratos, seja com afagos.

Nessas duas exigências está contida, dizia Cristo, toda a lei e os profetas.

Para grande escândalo do relativismo pedante que desejaria nos convencer da geral discórdia entre os valores culturalmente admitidos nas várias sociedades, a universalidade desse duplo mandamento é um dos dados mais evidentes da história mundial. Não há com efeito civilização, por mais remota ou “bárbara”, que não tenha valorizado, acima de todas as outras virtudes e motivações humanas, o impulso para o conhecimento e o ensino da “única coisa necessária”. O prestígio universal do sacerdócio — no sentido amplo que Julien Benda dava à palavra clerc, que inclui a presente classe dos “intelectuais” — é o mais patente sinal de que, por trás de toda a confusão aparente das línguas, a humanidade unânime tem plena consciência de uma hierarquia de valores que, se fosse questionada, suprimiria no ato a possibilidade mesma do questionamento, já que não se pode questionar um saber exceto em vista de um saber mais alto.

***

A observações gerais, suficientemente óbvias para só terem de ser lembradas explicitamente em situações de desorientação e confusão incomuns, eu desejaria aqui dar alguns desenvolvimentos mais particularizados e mais ligados à existência histórica, concernente, de um lado, à cultura e à civilização — consideradas ainda em escala geral —, de outro à presente e catastrófica situação da cultura brasileira.

Com relação ao primeiro ponto:

1. Embora o impulso ascensional a que me referi seja sempre e universalmente o mesmo, o movimento de doação e repartição que se lhe segue tem de tomar, por força, a forma dos canais de comunicação existentes numa sociedade historicamente dada: língua, símbolos, valores, etc. Daí que se possa sempre observar, no estudo das manifestações superiores da espiritualidade, esse duplo direcionamento, que de um lado atesta a convergência dos caminhos percorridos pelos homens espirituais de todo o mundo (“tudo o que sobe converge”, dizia Teilhard de Chardin), de outro a pluralidade inesgotável das formas assumidas pelos testemunhos incorporados ao legado cultural: textos, obras de arte, leis, etc. (1)

2. Todo fenômeno de ascensão interior, sem exceção, começa sempre com um indivíduo isolado — e que, no curso da sua caminhada, é levado a isolar-se ainda mais da comunidade em busca da necessária condição de concentração espiritual —, e se completa com a irradiação de parte dos conhecimentos obtidos, de início numa discreta roda de companheiros ou discípulos investidos da mesma disposição para o isolamento e a concentração, em seguida em círculos cada vez maiores, até abranger comunidades, sociedades e civilizações inteiras. (2)

3. No processo de irradiação, intervêm a memória e o registro. De início transmitidos oralmente e sustentados pela presença e pelo exemplo do mestre, os ensinamentos não tardam a registrar-se, não raro sob a forma compacta de sentenças lacônicas ou de narrativas alusivas e simbólicas — ou grafismos, ou melodias — que constituirão o núcleo irradiante em torno do qual se formará, com o tempo, a cultura. Esta pode abranger desde simples repetições imitativas das formas originárias até uma infinidade de desenvolvimentos intelectualmente relevantes. Qualquer que seja o caso, é uma fatalidade da constituição humana que a reprodução das condições internas e psicológicas do aprendizado, que depende exclusivamente da livre iniciativa dos futuros aprendizes e só pode ser estimulada mas não determinada pela cultura, não acompanhe jamais a velocidade da proliferação das criações culturais que refletem o núcleo inspirador inicial de maneiras cada vez mais distantes, apagadas, indiretas e finalmente invertidas. O que começou como uma intuição direta da ordem suprema termina como debate entre ignorantes e cegos esmagados sob toneladas de registros materiais tornados incompreensíveis.

4. Esses três momentos refletem, no microcosmo da história humana, os três gunas ou “movimentos básicos do cosmos” de que fala a doutrina hindu: sattwa ou movimento ascensional, rajas ou movimento expansivo, e tamas, ou movimento descendente, degradante e “entrópico”. Rajas nasce de sattwa assim como o Segundo Mandamento decorre do Primeiro. O terceiro momento nasce do segundo, quando se torna autônomo e perde sua raiz no primeiro: quando o amor do ser humano ao ser humano já não visa a elevá-lo acima de si mesmo, mas se limita a desejá-lo e agradá-lo, o amor se degrada em lisonja, a lisonja em manipulação e a manipulação em ódio. No fim já não é possível distinguir uma coisa da outra e o ponto mais fundo do engano se atinge quando o grosseiro e o brutal, a revolta e o fanatismo passam a ser aceitos socialmente como manifestações do “autêntico”, quando são apenas o resultado de uma longa sedimentação de erros e um condensado de todas as idolatrias passadas. Na esfera intelectual, a mesma coisa: quando o ensino e a cultura já não transmitem a inspiração originária mas põem em seu lugar o culto idolátrico das formas acumuladas historicamente (o que pode tomar a forma do dogmatismo seco, ou do estetismo, ou do formalismo social, etc.), ainda resta a possibilidade de uma reconquista do sentido interior, mas a proliferação mesma das criações culturais, ilusoriamente tomada como riqueza, torna isso cada vez mais difícil, e por fim a acumulação de pontos cegos se condensa num aglomerado de erros fundamentais — uma “revelação satânica” — que, justamente por seu caráter compacto, obscuro, brutal e impressionante, é tomado ilusoriamente como uma descoberta libertadora. Que um “filósofo” tenha chegado a explicar a história pela organização econômica, como se a organização econômica surgisse do nada, como se ela pudesse brotar diretamente do substrato animal do homem, como se ela não fosse reflexo e subproduto da elevação do homem em direção à percepção da ordem cósmica — eis um curioso e trágico exemplo dessa inversão onde a densidade mesma das trevas é tomada como uma espécie de fulgor. (3)

5. Um dos traços marcantes do período entrópico é que a própria administração de uma vasta e crescente coleção de registros culturais requer a formação de uma classe de letrados para a qual esse legado, considerado em si mesmo e independentemente de qualquer referência às suas fontes inspiracionais, se torna objeto de estudo e devoção. Técnicas especiais são criadas para esse fim — a bibliografia e a bibliologia, a filologia, a crítica histórica dos documentos, a análise estrutural — e essas técnicas por sua vez se acumulam até o ponto de constituir um universo cultural de direito próprio. Algumas delas podem visar à simples conservação ou reconstituição dos documentos, outras à sua “interpretação” em função das épocas e ideologias, outras a elucidar sua estrutura interna, etc. Todas são alheias ao problema central: assegurar que o examinador tenha a condição interior de elevar-se à experiência originária da qual o documento é registro. Essa condição é dada por pressuposta ou deixada à casualidade do maior ou menor talento pessoal. Ela está completamente fora do processo investigativo e educativo, que assim tem o seu foco inteiramente voltado, seja para os registros em si, seja para suas circunstâncias, para o que lhes está em torno. Mostrar habilidade no domínio dessas torna-se o critério essencial de seleção e avaliação na vida intelectual, e o decorrente desvio das discussões para uma infinidade de aspectos menores e irrelevantes produz a criação de novas e novas técnicas, tornando a vida intelectual uma insensata demonstração de força e, no fim, produzindo por inevitável reação o surgimento de técnicas para destruir as técnicas e para provar a absoluta inocuidade dos documentos.

***

Com relação ao segundo ponto, isto é, à situação atual da cultura brasileira, o que é preciso enfatizar é o seguinte:

1. Em quinhentos anos de existência, a cultura deste país não deu ao mundo um único registro de experiência cognitiva originária. Nossa contribuição ao conhecimento do sentido espiritual é, rigorosamente, nula. Não há nas correntes culturais do mundo um único símbolo, conceito, idéia ou palavra essencial à conhecimento, que tenha sido descoberta de um brasileiro. Toda a nossa “produção cultural” consiste apenas de prolongamentos e ecos de registros absorvidos de culturas estrangeiras. (4) Nesse sentido, nossa cultura é rigorosamente “periférica” em relação à história espiritual do mundo. Periférica, portanto, num sentido bem diverso ao que essa palavra tem no jargão do academismo esquerdista (Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso, etc.), onde centro e periferia são economicamente determinados e daí decorre uma teoria grotesca que identifica o centro espiritual do mundo ao centro do poder econômico — teoria ela mesma periférica, no sentido que dou ao termo.

2. Como entramos no curso da história num momento em que as culturas que nos serviam de fontes já se encontravam elas próprias num estado avançado de decomposição entrópica, perdendo cada vez mais de vista as intuições originárias e enrijecendo-se num formalismo do qual agora tentam desesperadamente sair mediante a decomposição geral das formas (como um homem que, cansado de tentar em vão compreender um livro passa a rasgá-lo na esperança de da sua decomposição física obter a sua quintessência), toda a história da nossa cultura é a do eco de um eco, da sombra de uma sombra. Todos sabemos disso e temos vergonha disso. Procuramos inutilmente aliviar essa má-consciência lançando as culpas no econômico (o que já é reflexo de uma ilusão, portanto duplamente periférico), ou então apegando-nos à quantidade e declarando que o volume de uma produção irrelevante e repetitiva é prova de nossa “criatividade”.

3. Considerando-se os nossos cinco séculos de história, a extensão física e o volume populacional deste país, a nulidade da nossa contribuição espiritual chega a ser um fenômeno espantoso, sem paralelo na história do mundo. O desinteresse, a letargia espiritual da cultura brasileira, a prisão da inteligência nacional na esfera do econômico imediato, são sinais de uma pequenez de alma que jamais se observou em tão impressionante escala coletiva. Se existissem verdadeiros estudiosos acadêmicos entre nós esse tema seria motivo de preocupação e debates. Mas toda a nossa vida acadêmica é ela própria reflexo desse fenômeno, que escapa portanto ao seu horizonte de visão: nossas classes letradas não têm força sequer para tomar consciência da sua própria miséria espiritual.

4. Nem mesmo no domínio religioso, que é aquele onde a busca espiritual tem o seu suporte mais fácil e natural, registramos uma única experiência que atestasse algo como um contato direto, mesmo breve e fugaz, entre um brasileiro e o sentido da vida cósmica. Toda a nossa “religiosidade” é periférica e imitativa, resíduo da decomposição de cultos extintos ou cópia de pseudo-religiões inventadas na Europa ou nos Estados Unidos.

5. É exatamente por isso que toda ideologia nacionalista, entre nós, tem sido simplesmente reativa e oportunista, já que não pode se fundar em valores espirituais inexistentes. A pressa com que nosso povo copia hábitos e modos de falar estrangeiros, dando mesmo a seus filhos nomes ingleses ou franceses, mostra a profunda indiferença popular por uma cultura que nada tem a lhe dizer sobre o sentido da vida e que, no máximo, lhe fornece, na música popular, no futebol e no Carnaval, os meios e a ocasião de se anestesiar, por meio de ruídos sem sentido, contra o sem-sentido da vida. Nosso nacionalismo, por isto, não pode se compor de verdadeiro amor à pátria, exceto em estreitos círculos — por exemplo nas Forças Armadas ou em antigas famílias de altos servidores públicos — que têm sua história comunitária ligada às lutas pela formação política do Brasil e por isto amam sua criação. Pode também haver um certo amor à pátria na constatação direta de certas virtudes espontâneas da sociedade brasileira, mas esta constatação, em vez de ser reforçada no nível da cultura letrada é aí desmentida à força de sofismas de um artificialismo impressionante (produzidos, é verdade, a soldo das fundações Ford e Rockefeller, mas por pessoas que, por outro lado, sendo esquerdistas, se acreditam piamente nacionalistas e anti-americanas, o que já basta para atestar a leviana superficialidade de suas inteligências). Fora disso, o nacionalismo no Brasil se constitui apenas de ressentimento anti-americano — motivado antes pelas culpas recalcadas da classe letrada do que por queixas objetivas, embora estas existam — e não tem nenhum fundamento cultural autêntico.

6. Toda aspiração nacional de tornar-se “grande potência” com uma base cultural tão nula está condenada, de antemão, seja ao fracasso, seja a um sucesso que se tornará, caso alcançado, um flagelo para a humanidade, obrigada a curvar-se ante a força bruta de novos bárbaros que nem sequer têm um senso próprio de orientação na História onde interferem cegamente.

7. Todo patriotismo, aqui, é investimento num país imaginário e meramente possível, apenas toscamente prenunciado pelas virtudes populares espontâneas que mencionei, as quais aliás se dissolvem velozmente sob o impacto do discurso destrutivo que hoje é o Ersatz de moralidade entre as nossas classes letradas. Quem deseje contribuir para que esse país se torne realidade só tem um caminho a seguir: lutar para que a cultura brasileira se ligue às fontes centrais e permanentes do conhecimento espiritual, para que a experiência da visão espiritual ingresse no nosso horizonte de aspirações humanas e, uma vez obtida, faça explodir, com a força das intuições originárias, todo um mundo de formas imitativas e periféricas, gerando uma nova vida.

O resto é pura agitação sem finalidade.

 

OLAVO DE CARVALHO

31/12/99

FONTE: http://www.olavodecarvalho.org/textos/brasil.htm