Médicos explicam o fenômeno da rejeição a produtos que contenham lactose e pacientes descrevem o drama de co nviver com náuseas, diarreias e má digestão. Profissionais mostram o caminho para eliminar sintomas e supera r o mal-estar

Tolerância zero

Médicos explicam o fenômeno da rejeição a produtos que contenham lactose e pacientes descrevem o drama de conviver com náuseas, diarreias e má digestão. Profissionais mostram o caminho para eliminar sintomas e superar o mal-estar

· Silvia Pacheco

Rafael Ohana/CB/D.A Press

Giulia e Anna Luíza têm intolerância à lactose. A mãe, Yasmine, troca o leite por leite de soja

Durante quatro meses, a promotora de eventos Roberta Fernandes Viana, de 28 anos, sentiu que algo não ia bem com seu organismo. Além de fortes dores no estômago, a moça sofria com refluxo, cólicas intestinais, enjoos e convivia com uma pele cheia de erupções que lembravam acne. “Achava que era gastrite nervosa e que iria passar, mas não passou”, conta. “A cada dia piorava. Tinha dores de cabeça, ficava inchada e em alguns dias chegava a vomitar”, lembra Roberta. O tormento durou até a moça procurar um gastroenteorologista, que diagnosticou intolerância à lactose.

Roberta faz parte de um crescente número de pessoas que se tornaram intolerantes à lactose. De acordo com o nutricionista Júlio Aquino, de 10 pacientes que recebe em seu consultório, seis têm o problema. Porém, deve ficar claro que a intolerância à lactose não é considerada uma doença. Ela nada mais é do que a incapacidade de digerir a lactose, podendo ser passageira ou não. “A lactose é o principal açúcar do leite, que precisa de uma enzima, a lactase, para decompor o açúcar em carboidratos mais simples, para a sua melhor absorção. Se essa enzima não é produzida, a lactose se acumula no tubo digestivo e gera o problema”, esclarece Lenora Gandolfi, gastropediatra e professora da Universidade de Brasília (UnB).

O problema pode se manifestar por deficiência congênita da enzima, aquela em que a pessoa não produz a lactase; por diminuição da enzima decorrente de doenças intestinais causadas por agentes infecciosos virais (rotavírus) ou de doenças como a celíaca, o mal de Crohn e a giardíase; e também pode ocorrer com a diminuição gradativa da lactase, processo conhecido como deficiência ontogenética, na qual se encaixa o perfil da promotora de eventos e é considerado a mais comum entre a população.

Descrições
De acordo com a médica, o primeiro tipo é muito raro e acomete crianças logo após o nascimento. “São bebês que não conseguem nem se alimentar do leite materno. Porém, é raríssima, com poucas descrições na literatura médica”, informa a médica. O segundo tipo ocorre com a sequência de diarreia persistente e é bastante comum em crianças no primeiro ano de vida. “Normalmente é causado por algum agente infeccioso que interfere na produção da lactase, fazendo com que a pessoa não consiga decompor a lactose”, explica Lenora.

Já o terceiro tipo, conhecido como ontogenética, é o mais comum e, geralmente, se torna frequente. Surge de forma gradual, a partir dos 2 anos de idade. “Esse tipo acomete diferentes grupos populacionais, que vão desde crianças a adultos jovens e idosos”, esclarece a gastropediatra. Esse útlimo tipo está relacionado com a quantidade individual que cada pessoa produz de lactase. “Um copo de leite para mim, por exemplo, pode causar um estrago para o outro”, exemplifica a médica.

Sintomas
As gêmeas Giulia e Anna Luíza Schuabb Duarte Marrocos, de 3 anos, sofrem há um ano com a intolerância à lactose. Porém, os médicos ainda não sabem se o problema é passageiro ou crônico. “Elas são muito novas para fazer o exame da lactose (veja arte). Por enquanto, testamos a tolerância delas ao leite com adição de pequenas quantidades de seus derivados”, conta a mãe das meninas, Yasmine Schuabb Duarte.

Os primeiros sintomas das gêmeas surgiram quando estavam prestes a completar dois anos. A mãe relata que de um dia para o outro, as meninas começaram a vomitar e a terem diarreia após tomar mamadeira. “A cor dos vômitos e das fezes era igual à do leite, logo deduzi que havia alguma coisa relacionada a ela”, disse.

Yasmine levou às filhas em uma gastropediatra e o diagnóstico foi feito baseado nas reações das meninas quando ingeriam alimentos com leite. “A médica cortou tudo que continha leite e a melhora se deu em dois dias”, lembra a mãe.

Método
A escolha pelo corte do leite na alimentação é um dos métodos mais adotados pelos médicos e nutricionistas. “Algumas vezes, fazemos a substituição do leite por soja. Mas a recomendação é cortar totalmente o alimento”, informa o nutricionista Júlio Aquino.

O motivo é porque algumas pessoas que têm intolerância à lactose podem ter uma hipersensibiliadade ao leite, ou seja, alergia ao alimento. “Há uma proteína no leite, a caseína, que não é digerida porque ela tem baixa quantidade do aminoácido cisteína. Com isso, grandes pedaços de proteína passam para o intestino e isso acaba desencadeando a hipersensibilidade”, explica o nutricionista.

Algumas vezes, fazemos a substituição do leite por soja. Mas a recomendação é cortar totalmente o alimento”

Júlio Aquino, nutricionista

Ouça trechos da entrevista com a pediatra Lenora Gandolfi.

Reações alérgicas em cadeia

A alergia ao leite é uma condição bem menos frequente, geralmente hereditária, que ocorre quase que exclusivamente em crianças pequenas. Embora o culpado — o leite — seja o mesmo, há diferença entre a alergia e a intolerância. Essa hipersensibilidade é uma resposta imunológica do organismo à proteína do leite. Ou seja, o corpo entende essa proteína como um agente estranho que precisa ser combatido e desencadeia reações alérgicas, como diarreia, urticária, sintomas respiratórios (como asma) e febre. “Esse quadro acontece principalmente quando as crianças são pequenas e deixam de tomar leite materno, precocemente, e passam para outro leite”, diz Lenora Gandolfi.

O tratamento é fácil, porém difícil de ser seguido. “Em primeiro lugar, é importante esclarecer que não há como promover a produção de lactase, mas sim controlar os sintomas”, disse a gastropediatra. Roberta, a promotora de eventos, chegou a emagrecer três quilos depois de diagnosticada com o problema, no início deste ano. “No começo, cortei geral leite. Hoje sei qual é a quantidade que posso ingerir, sem que me faça mal.” Já as gêmeas Giulia e Anna Luíza substituíram o leite pela soja nos bolos, nos brigadeiros e em outros alimentos. “Minhas filhas são conscientes quanto ao problema. É difícil, mas não impossível”.

Alguns médicos, entretanto, receitam um tipo de medicamento manipulado que serve como digestivo. “A pessoa toma logo depois de ingerir o alimento”, diz a médica. Nos Estados Unidos, porém, o digestivo é vendido até em supermercados. Mas no Brasil este medicamento não tem registro. A Anvisa autoriza a compra se a pessoa apresentar receita médica. (SP)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s