8 December, 2010 23:21

Gim Argello renuncia ao cargo de relator do Orçamento. Mas continua um caso de polícia

Os senadores Gim Argello e Renan Calheiros (Foto: Dida Sampaio)

Enfiado até o pescoço em bandalheiras de grosso calibre, em qualquer país menos complacente com meliantes o cidadão Jorge Afonso Argello estaria no banco dos réus, na cadeia ou foragido. Num Brasil cada vez mais parecido com lugarejos fora-da-lei de faroeste americano, Gim Argello é senador, dirigente do PTB e conselheiro de Dilma Rousseff. Como não há limites para o absurdo, foi até a tarde desta terça-feira o relator do Orçamento da União. Acaba de renunciar ao cargo para continuar exercendo o direito de ir e vir entre o Congresso e o Planalto.

Nesta segunda-feira, uma reportagem do Estadão comprovou que, mais que uma raposa escalada para tomar conta do galinheiro, Argello era a raposa que, dentro do galinheiro, mantinha a entrada escancarada ao resto da espécie. Se já vigorasse o “controle social da mídia”, o espetáculo da roubalheira federal, reprisado a cada edição do Orçamento, seria reapresentado sem que o diretor Gim Argello sequer se desse ao trabalho de retocar o enredo.

Contratos superfaturados, instituições fantasmas, entidades com endereços inexistentes, larápios conhecidos representados por laranjas, boladas remetidas sem escalas ao bolso dos amigos ou à conta bancária dos parentes ─ nenhuma prática fraudulenta ficou fora do script que orientou a movimentação dos canastrões de sempre. Tudo somado, a farra não sairia por menos de R$ 16 milhões.

Confrontado com o vistoso buquê de emendas criminosas que subscreveu, o relator alegou que cabe ao governo apurar irregularidades. Homem de boa-fé, ele se apoiara na premissa de que todos os fantasmas são reais, incluídos os que inventou. Uma das emendas assinadas por Argello, por exemplo, repassava R$ 250 mil a uma ONG pertencente a uma amiga condenada pela Justiça.

“Acatei o pedido com boa intenção, mas agora não atendo mais ninguém”, fingiu magoar-se antes de constatar que chegara a hora de sair de cena antes da aparição de mais obscenidades. “Solicitei formalmente ao Ministério Público Federal, à Controladoria Geral da União e ao Tribunal de Contas da União que façam um pente fino nestas emendas”, diz um trecho da carta-renúncia. “Levo comigo a serenidade e a tranquilidade”. Vai perdê-las se a solicitação anterior for imediatamente atendida pelas entidades mencionadas.

Suplente do senador Joaquim Roriz, Gim Argello assumiu a vaga aberta pela renúncia do titular em 17 de julho de 2007. Para evitar que fosse despejado do gabinete novo pelo prontuário antigo, aproximou-se do grupo liderado por José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá. Para garantir a impunidade, aproximou-se de Dilma Rousseff pelo caminho mais curto: virou amigo de Erenice Guerra. Negociante de fino faro, ele sempre sabe com quem está falando.

O reincidente incorrigível não será castigado pelos parceiros de Senado. A Casa do Espanto não pune suas atrações. Pena que o Brasil seja tão compassivo com os bandidos que operam de terno, protegidos por imunidades parlamentares e longe do Morro do Alemão. Se a Justiça valesse para todos, o homem que entrou no Congresso pela porta dos fundos já teria saído na traseira de um camburão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s